About the f… cold ou derretendo o castelo da Frozen
Nem mesmo o urso polar, representante máximo da mega fauna carismática gelada, se expõe diante do frio extremo. O gigante branco hiberna, fecha os olhos para o inverno, recolhe-se à sua caverna e espera a temperatura subir para finalmente rever o mundo.
O exemplo da natureza é a prova maior de que essa ideia de inferno quente e céu gelado certamente foi obra de algum europeu recalcado e invejoso com o calor dos trópicos. Assim, o frio foi glamourizado e ver a neve virou um sonho vendido em filmes e pacotes de viagens. Mas o que as agências e o cinema não mostram faz qualquer pessoa com um mínimo de juízo querer trocar uma montanha do floco gelado pela mesma quantidade de areia de praia.
Quem cresceu em um país quente, onde a referência de frio são os 15°C do ar-condicionado do escritório, muitas vezes compra a ideia de que “o frio é melhor do que o calor porque o frio você consegue combater. É só colocar um casaco”. Ledo engano.
Diante de sensações térmicas próximas dos 30 graus negativos, com vento batendo no rosto, neve entrando na bota e tendo que tirar a luva para atender o telefone, você, rapaz latino-americano, vai sentir frio ainda que esteja trajando a armadura completa do cavaleiro do apocalipse glacial, que inclui segunda pele, gorro, luva, meia, um moletom sobre a camisa que está sobre a segunda pele, cachecol e, finalmente, o casaco.
Como se pode imaginar, uma simples saída de casa até a esquina requer um ritual quase litúrgico que, diga-se de passagem, precisa ser religiosamente cumprido. Caso contrário, as consequências podem ser catastróficas.
Além das camadas de roupas e acessórios, quando o clima é frio e seco, como é o caso de Toronto, você não apenas congela como desidrata, resseca e fica magnetizado. Pele, olhos e lábios craquelam tal qual uma tela a óleo esquecida no arquivo morto de um museu. Existe ainda o choque estático que, nessas condições, são tão comuns quanto as feridas que surgem nas pontas dos dedos, cantos da boca e mucosa do nariz, provocando sangramentos rotineiros.
Para minimizar o impacto da defumação a frio, ter em mãos colírios, hidratantes labial e de pele, soro nasal e uma garrafa de água; sim! água, pois você perde líquido o tempo todo nas paradas obrigatórias nos banheiros e na eterna coriza; são tão importantes quanto se vestir bem.
Na prática, porém, lembrar de tudo isso é missão hercúlea. Logo, pelo menos alguma coisa ficará negligenciada e seu corpo dará sinais claros que está vivendo em um ambiente não tão amigável, e que o frio não é nada romântico.
Sobre os aspectos psicológicos, a paisagem com seus cinquenta tons de branco é outra questão a ser considerada. A noção de espaço e profundidade de campo ficam comprometidas e a ausência de cores, muitas vezes, passa a sensação de estar num deserto ou à deriva no oceano. Não por acaso, problemas emocionais são mais comuns em regiões e épocas mais frias.
Pelas baixas temperaturas, mas principalmente pelo excesso de neve, uma operação de guerra é montada para manter a cidade em funcionamento. Assim, sociedade civil faz a sua parte removendo a neve da parte da calçada que dá acesso à sua casa e o poder público investe pesado em máquinas que trafegam dia e noite pelas ruas limpando as vias. Toneladas de sal são despejadas para ajudar a derreter o gelo, mas, ainda assim, os transtornos não são poucos.
Coisas simples, como atravessar uma rua, exigem atenção redobrada pelo risco de escorregões e quedas. Lama de neve e placas de gelo, que resultam da condensação em diferentes níveis, são armadilhas espalhadas por todo canto, da inocente faixa de pedestre ao degrau de acesso a uma padaria. E todo mundo tem uma história de escorregão para contar. É feio, é humilhante e é arriscado.
Por fim, e certamente não menos importante, a convivência com o frio lhe obriga a abraçar hábitos alimentares até então distantes da sua dieta, como, por exemplo, beber café. O líquido negro e fumegante é o life mais acessível para seguir ativo e passando de fase no jogo.
Para se ter uma ideia, segundo um ranking da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Canadá é único país não europeu na lista dos dez maiores consumidores da bebida no mundo. No pódio dessa corrida estão Finlândia, Noruega e Islândia, e completando o top 10, Dinamarca, Holanda, Suécia, Suíça, Bélgica e Luxemburgo.
Dito isto, você, habitante dos trópicos, reveja seus conceitos, aproveite o Sol e, principalmente, não caia no engodo de achar que a vida no frio é um live-action de um filme de princesa da Disney. Evapore essa ideia, macete esse gelo seco e let it go.
